Cigarros electrónicos vendem glamour mas têm riscos


Médicos dizem que este é um produto novo e não regulamentado. Reforçam que não serve para deixar o vício, senão teria de ser considerado medicamento. Quem os comercializa defende que são uma forma mais saudável de fumar. 

Têm sabor a maçã, menta, coca-cola, mojito, caramelo. Com tamanha gama de sabores podia estar-se a falar de uma loja de gelados, mas o mostruário de caixas de 40 e tal cores atrás do balcão parece de cápsulas para máquinas de café. Só que olhando para o lado direito há uma elegante mesa alta que lembra aqueles sítios onde se podem experimentar jóias. São ainda objectos estranhos na paisagem comercial portuguesa as lojas de venda de cigarros electrónicos mas quem lá trabalha diz que começam a ter cada vez mais adeptos daquilo que os fabricantes designam por “o novo paradigma de fumar”. Os médicos alertam para os muitos perigos dos cigarros que querem passar uma imagem de glamour, de não fazerem mal à saúde e até de ajudarem a deixar de fumar. 

Paula Ferreira, 36 anos, actualmente sem emprego, entrou em uma das três lojas que surgiram nos últimos meses numa das grandes artérias comerciais de Lisboa, a Avenida de Roma. O Ministério da Economia não sabe quantas existirão no país, na capital há pelo menos cinco. Paula vem experimentar um cigarro electrónico mas parece contrariada. O jovem empregado sorridente convida-a a entrar e experimentar, na tal mesa branca elegante, onde estão boquilhas de cigarro descartáveis. Pergunta-lhe se gosta, por exemplo, do sabor a baunilha. Paula franze os olhos com um ar quase de nojo e diz que não, “eu gosto mesmo é do sabor a tabaco”. Na loja também vendem sabor a tabaco, têm quatro tipos. Há 20 anos que Paula fuma, “gosto de fumar, já são muitos anos”, não pensa em deixar, mas confessa: “Há um mês descobri que tinha bronquite, assustei-me um bocadinho”. Faz uma semana que comprou um cigarro electrónico mas diz que se está a dar mal, vem à loja porque quer insistir, talvez o problema seja do sabor que experimentou. Está convencida de que o cigarro electrónico lhe fará menos mal. Mas o que é afinal um cigarro electrónico? É um dispositivo electrónico que junta uma cápsula onde é colocado um líquido, contendo nicotina, que, ao ser consumido, produz um vapor que imita o fumo. Tem uma bateria e um carregador que se liga à corrente, tal como um telemóvel. Existem para vários preços mas há kits que começam nos cerca de 30 euros e podem ir até aos 80. E depois há os líquidos que têm que se continuar a comprar e uma panóplia de acessórios, desde a bolsinha ao objecto onde pode ficar pousado. O que pensa Inês Sousa, a cliente que entrou a seguir a Paula, é que fumar o cigarro electrónico é melhor para a saúde do que o cigarro tradicional. Os fabricantes reforçam que o tabaco tem mais de quatro mil substâncias e que os cigarros electrónicos pouco mais incluem do que nicotina. De fora ficam as mais perigosas e cancerígenas, como o alcatrão e o monóxido de carbono, repete-se nos vários sites portugueses que comercializam o produto. “Eventualmente podem ter menos riscos para a saúde, mas não libertam da dependência”, alerta o coordenador regional do programa de prevenção e controlo do tabagismo da região Norte, Sérgio Vinagre. O médico sublinha que nunca poderá ser visto como um instrumento para deixar de fumar, como se tenta fazer passar. “Os fins médicos devem ser devidamente fundamentados, com dados clínicos e científicos, e esses dados têm que ser submetidos às autoridades competentes para avaliação”, diz, citando uma circular da Autoridade Nacional do Medicamento - Infarmed sobre o produto. Sérgio Vinagre lembra que não está sujeito a qualquer controlo de qualidade, de avisos para a saúde, não paga impostos, “e pode ser uma forma de iniciação no vício de fumar, nomeadamente para os jovens”. O responsável critica o facto de estes cigarros serem vendidos “como se fossem um produto de luxo, de glamour e que parece que até faz bem”. Alberto Ferreira, director-geral da empresa que diz ser a primeira marca de cigarros electrónicos registada em Portugal, em 2009, informa que teve o seu boom de vendas online em 2011, quando Angelina Jolie e Jonhy Depp apareceram no filme Turista a fumá-los. Foram 4900 mil kits, no ano seguinte 2100, no ano passado foram 2400. Sublinha que os e-cigarros não servem para deixar de fumar “Estes cigarros servem para quem não consegue deixar de fumar”, explica. Inês Sousa, que tem 27 anos e é funcionária de um call center, diz que sente estar a fumar menos cigarros tradicionais - passou a três - e deixou de ter a roupa a cheirar a tabaco. O problema, conta, é que com o cigarro electrónico senta-se no sofá e vai fumando: “Não sei quanto fumo. Quando dou conta acabou o líquido”. A coordenadora da comissão de tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia , Ana Figueiredo, recorda que a introdução dos cigarros light e slim, anunciados como tendo menos nicotina, também pretendia diminuir o consumo, mas muitas vezes as pessoas acabam por fumar mais ainda. A pneumologista faz consultas de cessação tabágica e diz que não conhece ninguém que tenha deixado de fumar com e-cigarros ou sequer que tenha abandonado os cigarros tradicionais. Lembra que o tabaco é a principal causa de morte evitável no mundo, não só devido ao cancro mas também a doenças respiratórias e cardiovasculares. Há uns anos, recorda, surgiram no mercado uns inaladores de nicotina que eram parecidos com os e-cigarros e que, tal como métodos como os pensos ou as pastilhas, se destinam apenas a evitar a síndrome de privação da nicotina. Mas percebeu-se que com o seu uso era muito difícil às pessoas cessarem o hábito, uma vez que se perpetuava “a dependência física de levar o cigarro à boca, prolongava o gesto” e os médicos abandonaram-no como método de cessação tabágica. Na opinião da médica, a venda de e-cigarros “é um retrocesso imenso na luta contra o hábito”, cujo grande objectivo “é a cessação tabágica, não é a sua substituição”. “Há um vazio legal” Os responsáveis das três lojas de cigarros electrónicos contactadas pelo PÚBLICO em Lisboa dizem não vender o produto a menores. Mas actualmente nada o impede. “Há um vazio legal”, admite Alberto Ferreira, presidente da empresa que diz ser a primeira marca de cigarros electrónicos registada em Portugal, em 2009. Uma das vantagens apresentada por quem comercializa este produto é precisamente “a liberdade”: não está abrangido pelas restrições legais de fumar em espaços públicos. O mesmo é verdade para a venda a menores. Todas as limitações ao tabaco na lei portuguesa não se aplicam ao cigarro electrónico, confirma a directora do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo , Emília Nunes. Para ser abrangido pela legislação este tipo de cigarro teria que conter tabaco, ou seja, teria que incluir folha de tabaco. O tabaco tem mais de quatro mil substâncias, explica a mesma responsável, e os cigarros electrónicos contêm apenas uma delas, a nicotina (assim como aromas). Sendo de 2008, a lei portuguesa é anterior ao seu surgimento, uma vez que os e-cigarros só estão à venda em Portugal há tem cerca de dois anos. O vazio legal também existe nos outros Estados-membros da União Europeia, refere Emília Nunes. Para criar um quadro legal que se aplique a todos os países da União, a Comissão Europeia aprovou uma directiva no mês passado. Mas só quando o processo legislativo terminar poderá ser transposta para Portugal, o que deverá acontecer este ano, explica ainda a directora do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo. Quando isso acontecer, os e-cigarros, como também são conhecidos, passarão a ter que obedecer a várias regras, nomeadamente a obrigatoriedade de explicitarem os seus ingredientes, assim como terem que incluir avisos sobre os seus malefícios para a saúde, tal como acontece com os maços de tabaco. Passará também a haver regras em relação à publicidade. Alberto Ferreira afirma que com os cigarros electrónicos não há o problema do fumo passivo, uma vez se trata apenas vapor de água. A pneumologista Ana Figueiredo diz que isso não é verdade e que com o vapor é libertada nicotina, assim como outras substâncias que se desconhecem. Acrescenta que alguns estudos preliminares feitos nos Estados Unidos deram conta da presença das mais variadas substâncias tóxicas. “Pouco se sabe sobre o que vem dentro dos cartuchos”, avisa. 

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Este artigo foi redigido com base no artigo publicado no site Publico.pt

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—  Nuno Santos, Azambuja
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