Deixar de fumar sem engordar: como consegui-lo?


Há cada vez mais homens e mulheres que querem mesmo deixar de fumar, mas o medo de engordar impede-os. Afinal, o que é que temos de fazer para largar a nicotina sem a trocar por quilos?

O medo de engordar ainda impede muitos homens e mulheres de se libertarem da maior ameaça à sua saúde e à sua vida. Há quem tente deixar de fumar e desista. Mas também há, cada vez mais, histórias de sucesso onde o sabor da vitória se sobrepõe ao sabor da comida.

Rita P., 57 anos, começou a fumar aos 16 anos.

“Fumava um maço por dia. Tinha tentado deixar uma vez, com pensos de nicotina. A minha mãe ofereceu-me mil euros se eu deixasse de fumar. Aguentei seis meses a chorar baba e ranho. Depois voltei a fumar.”

E devolveu o dinheiro à mãe? (risos).

Não, não devolvi nada, e voltei a fumar ainda mais. Um dia, aconselharam-me uma clínica para deixar de fumar, e fui com duas amigas. Mas não acreditava que conseguisse. Aquilo funcionava com uns choques na narina e na orelha. Tive de tomar um sedativo mas comecei a pensar que tinha de aguentar.

Protegia-se de várias maneiras:

“Não ia a sítios onde se fumava e tornei-me um bocado anti-social. Mas o que mais me custou foi a mão e a boca. Toda a rotina é alterada.”

E o peso acabou por se acumular:

“Engordei alguns quilos. Comia tudo, mas não me contrariava porque tinha de ter alguma compensação. Ainda por cima, agora sabe-me bem um copo de vinho ou uma cerveja. O meu marido ri-se: ‘Deixou de fumar e tornou-se alcoólica’ (risos). Mas tudo me sabe melhor. Nunca fiz dieta porque sempre fui um bom garfo e agora tenho ainda mais prazer em comer. Mas comecei a fazer uma caminhada todos os dias, e já emagreci 5 quilos.”

Existem soluções para não engordar

Então mas vamos lá saber: engorda-se quando se deixa de fumar? Perguntámos a quem sabe: a fisiologista Teresa Branco, que há anos estuda o assunto e ajuda homens e mulheres que não querem deixar que o tabaco lhes arruíne o peso. E sim, a maioria das pessoas engorda quando deixa de fumar. “Explico porquê. A nicotina é um poderoso antidepressivo, e além disso tem várias ações. Vai estimular uma zona do cérebro, o estriado, que controla a sensação de apetite, e as glândulas supra-renais, que nos ajudam a controlar o peso. Portanto, a nicotina atua em centros que nos dão a sensação de saciedade e de prazer, e que aumentam o gasto de energia, e quando o corpo deixa de receber nicotina entra em desequilíbrio hormonal.”

A nicotina também aumenta o metabolismo, o que faz que, quando se deixe de fumar, o corpo gaste menos energia. “Há um exemplo muito básico que mostra como a nicotina acelera o metabolismo”, explica Teresa Branco. “Por exemplo, há muita gente que utiliza o primeiro cigarro do dia para ir à casa de banho, porque a nicotina põe o intestino a fazer mais contrações.”

Geralmente, substitui-se um vício por outro: “A comida é calmante e antidepressiva. E quando se deixa de fumar tudo sabe melhor. Portanto, é normal que se coma mais. E depois tem-se uma atração fatal pelo açúcar, porque é ‘a droga do lado’. O açúcar tem o mesmo estímulo no estriado que a nicotina, e é muito comum, para compensar, ir buscar substâncias que geram prazer.”

Boas notícias: tudo isto tem solução, quer seja preventiva quer à posteriori, com boa alimentação, suplementos e exercício.

O desmame de uma droga

Ou seja – temos de pensar o ‘deixar de fumar’ como aquilo que é: o desmame de uma droga poderosa que vai desequilibrar todo o organismo. E então, se eu estiver a pensar deixar de fumar, o que devo fazer? “Isto é um processo tão individual que cada pessoa tem de descobrir o que funciona com ela, e procurar especialistas que a guiem. As pessoas têm de ver isto como um investimento: o dinheiro que gastava em tabaco, gaste-o no seu projeto.”

Mesmo que não procure um nutricionista, comece por corrigir a alimentação. “Há casos em que as pessoas que fumam comem muito mal”, nota Teresa Branco. “Como não têm fome e não engordam, chegam ao bar e comem um folhado. Comem pouco e mal. E quando deixam de fumar continuam a comer mal. Mas nós não queremos que isso aconteça. Portanto, o ideal é que, antes de deixar de fumar, comece a prevenir e a tratar do organismo, a comer saudavelmente, a fazer exercício, porque depois são muitas mudanças ao mesmo tempo."

Ter o controlo do que se come não é um stresse mas uma ajuda adicional: “Saber que tem o controlo da situação é um grande apoio, porque senão a pessoa começa a pensar que não sabe onde é que vai parar, quando afinal pode controlar o que lhe acontece.” Como se ajuda o corpo a combater a ressaca da nicotina? “Além de terem mais cuidado com a alimentação e fazerem mais exercício, as pessoas devem ser compensadas de determinadas substâncias que lhes vão faltar.”

O que tomar: vitaminas do complexo B, que estão nas interações químicas de todos os processos energéticos. Também devem tomar antioxidantes: vitamina C, A, selénio, para proteger o organismo dos radicais livres, e triptofano (5-HTP). “Como a nicotina funciona como antidepressivo, devemos tomar suplementos que ajudem na produção de neurotransmissores (substâncias antidepressivas produzidas pelo organismo). É muito frequente as pessoas que fumam terem défices de serotonina e melatonina, a hormona do sono. Então podemos suplementar com precursores de serotonina, ou seja, agentes que estimulam o corpo a produzir serotonina, como o triptofano e vitaminas do complexo D, e já há estudos que indicam que dever-se-ia também tomar proteínas ‘de atleta’, como a lisina, a tiroxina, a tiamina.”

Aliados de peso

Imaginemos que deixei de fumar e ganhei alguns quilos. E agora? “Lembre-se que não está sozinha”, nota Teresa Branco. “E voltar a fumar não a vai levar ao que era dantes, porque o tabaco não faz emagrecer, apenas impede que se engorde. Não só vai manter os quilos que tinha como vai ter a nicotina a destruir-lhe o organismo. Portanto, esteja em que estado estiver, voltar a fumar nunca é uma boa ideia.”

Lembre-se que há aliados poderosos ao seu lado: comece a comer melhor, a suplementar-se com vitaminas e minerais, a ir ao ginásio. “Se pensar ‘eu agora pertenço à laia das pessoas saudáveis’, isso ajuda” (risos). “E depois fica-se com muito melhor aspeto, com um ar mais luminoso e mais jovem.” E se já fizer exercício? Vai ser mais fácil. “Não tem de fazer mais exercício, mas vai poder fazer outro tipo de exercício. Se dantes andava, agora vai conseguir correr. Vai acabar por gastar mais porque vai fazer exercício de maior intensidade.”

Conclusão: deixar de fumar deve ser planeado com antecedência para que não haja recaídas. E de facto consegue-se emagrecer. Mas o ideal é não engordar ou engordar o mínimo possível. E pense que, afinal de contas, deixar de fumar é mesmo o melhor que pode fazer pela sua saúde. “Temos tanta coisa que nos torna sexy”, afirma Teresa Branco, “não precisamos do cigarro para nada.”

Alimentos que ajudam

Aveia | Ajuda a diminuir a vontade de fumar. Laranja | Atua como desintoxicante, e o aroma ajuda a afastar a mente da nicotina. Espinafre, arroz integral e massas | O ácido fólico ajuda o organismo a lutar contra os efeitos nocivos e pró-cancerígenos do cigarro. Tomate | O licopeno é antioxidante e anti-inflamatório, e o tomate ajuda a substituir a nicotina sem os efeitos secundários (sabia que o tomate e a planta do tabaco pertencem à mesma família?) Banana | Tem vitamina B6, triptofano e potássio: o stresse reduz drasticamente os níveis de potássio e a banana ajuda a repô-los. Frutos secos, carne de peru, vegetais | São ricos em triptofano e vão ter um efeito calmante. Peixe, fígado e cogumelos | O selénio ajuda na absorção da vitamina E

Truques que salvam

Se além da vontade de fumar também tem vontade de comer, alguns truques podem ajudar: – Tenha à mão pequenos lanches pouco calóricos a que possa recorrer, como cenouras cruas para mastigar, pastilha elástica sem açúcar, e muita fruta. Esqueça as bolachas, mesmo as de água e sal, que têm muita gordura. – Não entre em dietas muito restritivas, que só vão aumentar o stresse de deixar de fumar. – Preencha o dia com atividades que a afastem da comida: vá ao cinema, visite um museu, dê um passeio, telefone a um amigo, escreva um romance, ou vá á igreja. – Encontre um tipo de exercício de que gosta – e pratique-o. Além de queimar calorias e aumentar o metabolismo, o exercício é um poderoso antidepressivo.

Fonte: American Heart Association, www.heart.org

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Artigo redigido com base em artigo publicado no site da revista ATIVA

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